Chá de fita, viagem ao inferno
Junho 9, 2009
Nasci em família evangélica, até os 17 anos morei com meus pais. Tive uma ótima infância, mas tudo mudou quando passei no vestibular. Me mudei da capital para o interior, e lá, fui morar numa república com os outros colegas.
Na república só tinha católicos, por isso acabei não criando amizade com nenhum dos moradores. Às vezes fazíamos festas e os outros estudantes iam pra lá, foi assim que conheci o Vanildo, ele também era evangélico como eu, acabamos nos tornando amigos. Mal sabia eu que ele estava desgarrado do Senhor e usava o título de irmão só para pegar as menininhas da igreja.
Foi num feriado e Vanildo me procurou, dizendo que sua família tinha viajado e que a gente ia fazer uma ‘viagem muito louca’. Fomos até sua casa e ele disse que ia preparar uma bebida muito maneira e que íamos nos divertir muito.
Como Vanildo era evangélico acabei sendo leviano e confiando piamente em suas palavras, mas o demônio falava através de sua boca.
Ele apanhou uma fita VHS de uma coleção bíblica da sua mãe, pra ser mais específico era o filme ‘Os Dez Mandamentos’, do Charlton Heston. Ferveu a água e colocou o rolo de filme na panela, depois de 15 minutos a água ficou turva e pronta para o consumo. Adcionou um pouco de açúcar pra ficar mais tragável.
Um pouco apreensivo, questionei o que era aquilo, mas ele muito eloquente falou: “Nada não. Bebe, bebe…”
Bebi, e senti uma onda de calor por todo o corpo. Comecei a enxergar cenas bíblicas, Jesus sendo açoitado pelos romanos, Moisés abrindo o mar vermelho. Porém neste filme não teve happy ending. Tive várias outras alucinações envolvendo Charlton Heston e entidades do umbanda, Exu Caveira, Pomba-Gira Cigana, Seu Zé do Kimbanda, Mameluca d’Angola, etc. Voltei a mim por um instante, olhei para minhas mãos e vi elas derretendo até virarem osso. Apaguei.
Acordei no outro dia como se tivesse sido atropelado por uma carreta. Estava muito mal e não conseguia pensar direito, sentia muita dor de cabeça e ânsia de vômito. Vanildo estava sentado no sofá balbuciando algumas coisas incompreensíveis. Deixei ele lá e fui no prato feito comprar uma marmita pra ver se melhorava, chegando mal conseguia formar uma frase pra pedir a comida, sentei na mesa pra almoçar, minha mão tremia muito, tanto que a comida não parava no garfo.
Depois do almoço fui pra casa, sentindo um imenso torpor. Estava tudo turvo e cor sépia.
Cheguei na república sentindo fortes dores abdominais, tomei sonrisal mas não melhorou. Decidi ir ao médico.
Fui ao hospital regional.
No consultório notei que o doutor tinha imagens de santo em sua mesa, era um católico. Percebendo aquilo sua credibilidade pra mim era o mesmo que nada. Contei que havia consumido o chá de fita, ele pediu um exame de urina e depois constatou que eu sofria de intoxicação por metal pesado. Que idiota! Eu não consumi nada de metal, e sim o plástico da fita. Foi aí que Deus tocou meu coração e enxerguei que o doutor não manjava era nada, e meu problema não era de ordem física e sim espiritual.
Procurei o pastor Isaac, que era o mais conceituado da cidade. Ao encontrá-lo desabafei, contei toda a história do chá, foi aí que ele me contou que este chá é usado em cultos de candomblé, e que alguma entidade do espiritismo-umbanda kardecista se apossou de mim. Depois de uma sessão no batismo da piscina sagrada consegui recuperar minha saúde, mas pro meu bem e dos meus estudos abandonei Vanildo. Hoje me arrependo, devia tê-lo tentando chamar de volta para o caminho de Deus, mas na época estava ocupado com a faculdade.
Hoje sou formado em pedagogia além de ministrar pequenas palestras na Igreja Internacional. Às vezes ainda passo naquela cidade, e vejo o Vanildo, hoje católico, trabalhando numa borracharia e mal consegue sustentar seu vício,o chá de fita.